Por Márcia Regina Orsi
No consultório é comum ouvir frases como: “Meus filhos não me escutam”, “Meu pai não me ouve”, “Meu pai não me entende” ou “Adoraríamos manter uma conversa com nossos filhos, mas como? Como conseguir tal proeza?”.
A falta do diálogo traz inúmeros problemas: distanciamento, barreiras, sobrecarga, culpa, insegurança, medo de não transmitir valores e até o risco de abrir espaço para pessoas prejudicarem nossos filhos. Tudo isso faz com que utilizemos todos nossos recursos para afastar este mal.
Em nosso ímpeto de criar um diálogo, sobrecarregamos nossos filhos com sermões sobre certo e errado e os abarrotamos de perguntas. O que recebemos em troca, geralmente, é um olhar parado, ou uma resposta seca. E surge nossa frustração. O assunto não é tão simples e requer algumas habilidades que exigem mudanças de hábitos arraigados, coisas que aprendemos e ouvimos desde pequenos e fazemos com as melhores intenções.
O psicanalista, educador e escritor Ruben Alves, no texto “Escutatória”, explicou que sempre via anunciados cursos de oratória. “Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de 'escutatória'. Mas acho que ninguém vai se matricular”.
Parafraseio Alberto Caeiro, heterônimo criado por Fernando Pessoa: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Minha primeira dica para um diálogo é: ouça, ouça com atenção, não olhando para a televisão, ou realizando um trabalho. De preferência, pare o que está fazendo e olhe para seu filho, ouvindo o que ele tem a dizer, e não se apresse a dar sua opinião ou solução. Escute acompanhando a história narrada.
Algumas vezes, você não pode parar o que esta fazendo, mas pode demonstrar a importância de ouvi-lo dizendo: “O que você tem pra me dizer parece importante e agora não posso parar para ouvi-lo, gostaria de ouvir assim que eu terminar o almoço”.
Quantas vezes nesta frase você repetiu a palavra ouvir? É isso que você tem a fazer: ouvir. Não há nada mais irritante e frustrante que falar e ter a impressão que não estão prestando atenção. Uma vez que está ouvindo seu filho, resista à tentação de dar conselhos ou fazer perguntas.
Estas duas atitudes têm o poder de travar as pessoas. Imobilizam-nos porque nos dão a sensação de inadequação e incompreensão e de que não estão nos ouvindo de fato. Vale mais apena ouvir com palavras que estimulem a fala: “Hum... Sei... Oh...”. Dessa forma, eles vão falando mais a vontade e podemos perceber melhor seus pensamentos, funcionamento e sentimentos.
Mas eu não vou falar nada? Bem se nossos exemplos falam mais alto que nossa fala, se você o ouvir é possível que ele vá te ouvir. Pode até parecer curioso ele querer saber o que você pensa. Mas resista a tentação até mesmo nessa hora e diga: “Hum, o que você acha?”.
As nossas preocupações com o bem-estar de nossos filhos muitas vezes bloqueiam conversas que poderiam ser emocionantes. E não há nada que mexa mais com a gente do que os sentimentos dos nossos filhos.
Às vezes pensamos que se evitarmos os sentimentos negativos, eles desaparecerão. Costumamos dizer aos nossos filhos: “Você não está sentindo o que está sentindo”; “Isso não foi nada, não precisa chorar!”; “Não fique triste, você arruma outro namorado!”; “Você não odeia, esse sentimento é muito feio”.
E assim, querendo tirar os sentimentos incômodos dos nossos filhos, negamos sua existência. Quando seu filho ou filha lhe trouxer um sentimento indesejado, reconheça: “Hum... parece que doeu...”; “Isso te deixou muito triste!”; “É difícil perder um namorado!”; “Você parece com raiva”.
Mas não estarei estimulando estes sentimentos?
Não, você está dizendo que eles são reais, reconhece e sabe o que é senti-los. Assim ele pode se abrir com você e ir adiante com a conversa. Reconhecer os sentimentos dos filhos causa um alívio do tipo “Alguém me entende”. Não estamos concordando com eles, só reconhecendo.
Dialogar não é fácil, é preciso aceitar o que o outro tem a dizer, suas questões, experiências, sentimentos, ouvir com atenção, interesse e principalmente empatia. Uma vez feito isso, o que pode surgir é a confiabilidade e o sentimento de pertencimento. Posso te ouvir agora que me ouviu.
Márcia Regina Orsi é Psicóloga Especialista em Terapia Familiar Sistêmica, do Instituto Terapia Sistêmica. Tel.: 017 3353.2336 – email: marciaorsi@itsterapia.com.br

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