FAROL DA EDUCAÇÃO: “O que vem por aí?”. Esse é um tópico de seu blog (www.andrearamal.com.br). Com ciclos tão curtos de mudança, qual a importância de “prever o futuro”?
ANDREA RAMAL: O educador deveria se manter continuamente “antenado”, interpretando o contexto e se antecipando a possíveis mudanças. Por exemplo, questões como sustentabilidade, igualdade entre os gêneros ou diálogo multicultural fazem parte da educação de hoje e, há algumas décadas, não entravam no currículo escolar. Se a educação não estiver de olho no que “vem por aí”, corre-se o risco de se ensinar para um mundo que não existe mais, com conteúdos que não terão muito valor nem aplicação.
FAROL: A tecnologia é responsável por uma das mais importantes mudanças recentes no processo de educação. Se para os chamados “Nativos Digitais”, a tecnologia já está incorporada ao seu cotidiano, como os pais e professores devem lidar com essa ‘novidade’ e suas consequências?
ANDREA: A tecnologia, sobretudo a tecnologia digital, ajudou a subverter as relações entre professores e alunos e entre pessoas e conhecimentos. Acabaram os processos lineares, a separação entre quem sabe/ensina e quem não sabe/aprende. O mundo da tecnologia digital é o espaço da interatividade, do diálogo entre sujeitos que ensinam e aprendem juntos, da multiplicidade de janelas abertas, no qual cada um constrói o seu percurso e se torna protagonista da aprendizagem. Os estudiosos da pedagogia já desejavam uma escola assim há muito tempo, mas a tecnologia digital acelerou estas mudanças. O que cabe a pais e professores, ao lidar com os nativos digitais, é justamente se preparar. Os educadores devem ser usuários críticos dessas tecnologias para poder orientar crianças e jovens. A internet não é um material didático pronto; ela pode ser muito positiva se usada adequadamente, mas a intervenção educativa dos adultos é fundamental.
FAROL: Somos, na essência, capazes de nos adaptarmos a diferentes habitats e situações, mas, muitas vezes, sentimos medo do novo, o que pode ser uma reação até de preservação e segurança. O medo pode se transformar num inibidor da curiosidade, uma forma de recusar o novo? Como enfrentá-lo neste ambiente de constante mudança que nos cerca?
Andrea Ramal: De fato, a recusa diante do novo é um dos obstáculos para o avanço e isso se aplica, por exemplo, à escola. Apesar de tantas mudanças surpreendentes que acompanhamos nos últimos anos, a sala de aula ainda é muito parecida com a de um ou dois séculos atrás. De um modo geral, mudou pouco o estilo de “transmissão de conhecimento” nas aulas magistrais, com explicações do professor e provas no final do período. Creio que a escola de hoje é desafiada a renovar-se ou morrer. Ela pode ser substituída por outros ambientes de formação. Nos Estados Unidos há um movimento crescente de homeschooling, pais que decidem não matricular seus filhos na escola por considerá-la obsoleta e insuficiente para as necessidades de crianças e jovens de hoje. Os cursos online, muitas vezes gratuitos, e as comunidades de aprendizagem, disponibilizam o conhecimento para quem quiser aprender. Tudo isso mostra que a escola perdeu o lugar de detentora privilegiada do conhecimento. Por isso é momento dessa instituição perder o medo de ousar, experimentar novos modelos e processos e reinventar seu papel. Acredito que esse movimento já começou e a escola das próximas décadas será bem diferente da atual.
FAROL: Em seu livro recente, os pais podem conhecer suas opiniões sobre como criar condições para que seus filhos possam ter uma história de sucesso. Num mundo tão competitivo e em constante mudança, qual o foco da atenção dos pais no processo de educação de seus filhos?
ANDREA: O foco deveria estar na educação integral. Não se pode pensar só na dimensão acadêmica, ensinando conteúdos que serão úteis para passar no Enem ou se sair bem na vida profissional, mas deixando de lado a dimensão afetiva, a formação ética ou a criatividade. Ou, por exemplo, deixando de lado a educação para cuidar da saúde. O maior sonho dos pais é ver seus filhos realizados e felizes, e isso tem mais chances de acontecer quando a educação é completa, desenvolvendo todas essas dimensões. Isso se faz numa parceria entre escola e família, num dia a dia marcado pelo diálogo, pelo respeito e pelo amor.
FAROL: Mais do que prever o futuro, o melhor caminho seria dar as condições de formação para que os filhos tomem as melhores decisões em quaisquer condições novas de sua vida futura. Qual o papel da escola nesse processo?
ANDREA: O sucesso de uma pessoa depende de muitos fatores e um deles é a educação. É certo que uma educação de baixa qualidade, com pais pouco presentes, e falta de afeto e de diálogo em casa, são fatores que podem acarretar problemas na criança e no jovem, deixando sequelas por toda a vida adulta. Tento convencer os pais sobre o seguinte: quanto mais alto o grau de instrução do seu filho, maiores as suas chances de sucesso. Mas cabeça não é tudo. As pessoas de sucesso cuidam adequadamente de si mesmas e dos demais, alcançam qualidade de vida e se sentem felizes. Elas equilibram a mente, o corpo, o coração. O começo, a base de tudo isso está na escola e na família. São os educadores – os pais, em casa, e os professores, na escola – que ajudam a criança e o jovem a dar sentido ao que vivem, atribuir valor ao que aprendem, a se posicionar diante do que é certo ou errado, justo ou injusto. Por isso a família e a escola precisam atuar em conjunto para formar uma pessoa completa, desenvolvendo todas as suas capacidades.


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